Estive em Havana em outubro de 1999, quando Cuba ainda era uma ilha. Pensando bem, eu era uma ilha também. Essa foi minha primeira viagem para fora do Brasil, sozinho, com 19 anos e cheio de vontade de entender o mundo, que me estendia um tremendo cartão de visitas, onde se via o contorno de uma esfinge tropical.
Acho que estive dez dias na Ilha de Fidel e, na volta, escrevi minha primeira reportagem para um jornal impresso, o Jornal da Orla, trincheira resistente contra o diário A Tribuna.
A reportagem tem cara de domingo e faz um passeio por algumas imagens da Ilha. Não chamo Fidel de “ditador cubano”, mas também não celebro o regime. Tive o mérito de mostrar a economia doméstica de um cidadão normal: quanto ganha, como gasta, como vive.
Relendo, descubro detalhes interessantes no texto. O arremate da retranca é bacana para um garoto. Digo que, na virada do milênio, “o comunismo está de pé e de cabeça erguida, mesmo com o cinto apertado”.
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Retratos de Cuba no fim do milênio
João Paulo Charleaux
de Havana, Cuba
Carros franceses, italianos, americanos, navios de diversas bandeiras no porto. Um garoto metido dentro de um uniforme do Lakers toma uma coca gelada. Havana Velha, Cuba, outubro de 1999. Não parece, mas é. E o bloqueio? Existe, claro. Mas existem também os consumidores, que atiçam a cobiça e a correria dos países globalizados. Outros tempos.
Quem vai conhecer um dos últimos redutos do comunismo no mundo, dá de frente com o maior parceiro comercial da Espanha no Caribe. Na América Latina, só fica atrás dos gigantes, Brasil, México e Argentina. Coisa de comunista, por que não?
De fora, A Ilha parece a mesma. Mas quem volta de lá tem certeza de que as mudanças são grandes e de que paradoxo será uma palavra pobre para o que vem por aí. Quem vai querer?
Cuba Ltda. – A palavra mais ouvida na Ilha é “dólar”, com sotaque cubano. Com a opção do governo de investir no turismo, a moeda americana corre como água nas ruas de Havana, onde cada casa de comércio se transforma em casa de câmbio.
É gozado ver a moeda do Tio Sam ocupar o mesmo espaço onde aparecem outdoors como: “Bloqueio Yanque: Genocídio Contra Cuba” ou placas com a foto de Che e a legenda: “Anti-imperialista”.
O povo cubano continua ganhando e comprando, pelo menos legalmente, com o peso cubano. A moeda da Ilha vale 20 vezes menos que o dólar e, portanto, 10 vezes menos que o Real brasileiro, com variações.
A economia funciona como dois grandes mercados paralelos, um para o cidadão cubano e outro para o turista. São como dois países distintos, sobrepostos e convivendo no mesmo espaço geográfico.
Juan Mesa Sanchez é funcionário do BPA (Banco Popular de Ahorro), em Havana. Recebe PC$ 171,00 por mês. Tem direito a uma cesta básica com 3kg de arroz, 0,25kg de feijão, 3kg de açúcar, sendo metade açúcar branco e metade negro, um pão por dia e um sabão de lavar roupas para cada três ou quatro meses. Do seu salário – descontados gastos com água, luz, gás e contas pequenas – sobram PC$ 119,00, para comprar roupas ou algo mais de comer, como frutas.
Sanchez e os outros cubanos não passam fome, mas têm uma dieta simples. O café da manhã é um copo de café e pão. O que come no almoço esquenta também para a janta. É como em muitas casas brasileiras, com a diferença de saber que não vai faltar.
Para esse cubano, “a Revolução foi a melhor coisa que nos aconteceu. O que nos prejudica hoje é o embargo, tremendo”.
Sobre Fidel, ele diz que já pôde falar-lhe pessoalmente dos problemas que enfrenta. “Se ele é informado das coisas, resolve”, conta referindo-se a um pedido de reforma na rua atendido pouco tempo depois de contar o caso a Fidel Castro, quando saía de um de seus discursos ao povo de Havana.
Prostituição – Mas um dos problemas de Havana precisa ser contado por Sanchez a Fidel. A mistura dos dólares do turismo internacional com as carências e vaidades do povo tem levado muitas mulheres à prostituição. Em qualquer rua de Havana Velha ou de Vedado, na Praia de Santa Maria ou em qualquer estrada do interior, há mulheres dispostas a vender o corpo por dólares.
Mesmo assim, Cuba deve ser um dos poucos lugares a receber o que pode ser chamado de “turismo político”. São pessoas curiosas ou que, de alguma forma, simpatizam com o comunismo ou com a luta heróica do povo contra o embargo chamado americano, mas que, na prática, é quase um embargo mundial que faz faltar desde ar condicionado para o calor dos trópicos até papel higiênico em museus e restaurantes.
Por conta disso, são comuns as conversas em bares e salões de hotéis sobre a política cubana e a política mundial em relação a Cuba. Os turistas são como torcedores brasileiros. Falam de Fidel e do comunismo dos trópicos como treinadores de futebol.
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Havana evidencia o contraste entre o local e o global
O primeiro choque para os turistas que vão a Havana Velha é o estado das casas e prédios. A cidade é parecida com um grande centro antigo, só que com as paredes descascadas e sem pintura. A iluminação é fraca e muitas das ligações elétricas nas caixas de força são precárias, com fios à mostra.
Algumas ruas são esburacadas e, quando chove, ficam com água empossada. Não se sente cheiro de esgoto, nem há canos vazando. Em Havana Velha, ninguém mora na rua. Todos têm suas casas e, nelas, todos têm o que comer, onde dormir; têm escola para estudar e faculdade para cursar.
O fato é que Cuba é muito mais do que pode ser visto nas ruas. O regime de Fidel é muito mais do que podem dizer os cubanos. O bom trato dispensado aos turistas tem seu significado e os carros antigos que ainda circulam nas ruas também oferecem uma leitura da realidade muito distinta.
O cidadão cubano só pode comprar carros soviéticos, como o Lada, ou carros antigos fabricados antes da Revolução. Os carros novos, Hunday, Peugeots e Renaults são do Estado e servem como táxis exclusivos de turistas. Os motoristas destes carros têm uma autorização especial e pagam grande parte de seus ganhos ao Governo.
Os veículos circulam por boas estradas, notadamente construídas para um tráfego superior à demanda atual. Diferente das ruas de Havana Velha, as estradas que levam ao interior, como Soroa e Pinar Del Rio são largas e sempre livres.
O campo cubano tem uma das paisagens mais belas e menos badaladas da Ilha, com casas construídas com palha de palmeira, pequenas roças familiares e grandes extensões de cana-de-açúcar. Tudo fruto da reforma agrária nos moldes comunistas.
Em muitas destas propriedades, são plantados os famosos tabacos para charutos, os puros de Havana. Nelas, os homens são encarregados do cultivo e manutenção de galpões e da produção. As mulheres respondem pelo manuseio e enrolam o fumo.
Nesse final de milênio, a Ilha do comandante Fidel parece ter espaço para todos os questionamentos do mundo moderno. O contraste entre o local e o global, o choque de culturas, a inter-relação de diferentes economias como poucas vezes se viu. O comunismo está de pé e de cabeça erguida, mesmo com o cinto apertado.

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